NOTÍCIAS

PESQUISA

O assunto nunca esteve tão quente quanto agora: cientistas americanos divulgaram em maio que conseguiram, pela primeira vez na história, criar células-tronco humanas usando a técnica da clonagem. Essas células têm a capacidade de gerar cópias idênticas de si mesmas ou de se transformar em outro tecido do organismo. E são encontradas no corpo todo, em qualquer fase da vida, desde a embrionária, quando estão em plena atividade, até a adulta, em que suas funções são bem mais limitadas.

"Um exemplo claro de como elas agem é a nossa pele, que se regenera a cada 15 dias devido à ação das células-tronco", explica Marilene Hohmuth Lopes, biomédica do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Como elas podem atuar na reparação dos órgãos, a promessa é que sejam a chave para o tratamento eficaz ou até para a cura de doenças como Alzheimer, Parkinson, câncer, diabetes, esclerose e males do coração.

Os avanços da medicina têm feito brilhar os olhos, a pele e o cabelo de quem também quer cuidar da beleza. Afinal, cada vez mais estudos buscam entender como essas células podem ser eficientes para aumentar a produção de colágeno e elastina, preencher sulcos, tratar a queda de cabelo e até substituir o silicone, já que, em tese, multiplicariam a gordura, as fibras e a irrigação sanguínea sob os seios.

"No Brasil, o uso de células-tronco é permitido somente para pesquisas e experimentos médicos", esclarece Anna Verônica Ziccarelli, cirurgiã plástica. Para fins estéticos, o que se pode fazer são tratamentos que têm o objetivo de estimular a ação dessas células.

Lifting do Vampiro
Recentemente, a atriz americana Kim Kardashian chamou a atenção ao aparecer em um vídeo fazendo uma terapia facial com sangue, batizada de lifting do vampiro. A técnica se chama Plasma Rico em Plaquetas,  ou PRP, e também é realizada por aqui. "Primeiro, retiramos o sangue do paciente e colocamos em uma centrífuga para separar o plasma, que é a parte de cor amarelada, com alta concentração de plaquetas. Esse líquido passa por uma coagulação externa e, depois, é injetado no rosto do paciente em vários pontos", explica o cirurgião plástico Domingos Quintella de Paola.

Começa, então, um processo parecido com aquele desencadeado pelo organismo quando a gente se corta, só que muito mais potente: uma reação inflamatória na pele estimula as células-tronco a renovar os tecidos, revascularizar a área e acelerar a produção de colágeno e elastina.

O PRP também pode ser usado nos folículos capilares para combater a calvície masculina e feminina. "Recebo no consultório mulheres que, com o uso constante de apliques de cabelo, desenvolveram alopecia, que é a perda de fios em determinados pontos do couro cabeludo. Elas respondem bem ao tratamento", conta Anna.

Silicone sem Prótese
Lá fora, duas técnicas têm ganhado mais espaço. Uma delas consiste em colher células-tronco produtoras de colágeno, os fibroblastos, e multiplicá- las in vitro para, então, serem reinjetadas na pele e, espera-se, devolver firmeza e sustentação à área.

Nos Estados Unidos, é permitido fazer esse tratamento para preencher o bigode chinês,
rugas que vão desde as extremidades do nariz até o canto da boca. A vantagem em relação ao ácido hialurônico é que não existe possibilidade de rejeição e os resultados são mais satisfatórios?, diz Anna. Outro método, usado na Austrália e na Inglaterra, é retirar gordura de regiões como o abdômen e separar o material em duas partes no laboratório. De uma delas, os médicos extraem células-tronco para serem misturadas à outra porção e, então, reinseridas no paciente. O objetivo é implantar essa gordura turbinada nos seios e no bumbum para aumentar o volume deles (sempre de forma mais discreta do que uma prótese de silicone), mas a prática é bastante polêmica.

"Fazemos enxerto de gordura há décadas e a melhoria que tem sido notada atualmente nos consultórios decorre do aperfeiçoamento da técnica em si, e não da ação das células-tronco, que agora são implantadas junto", afirma o cirurgião plástico Ithamar Nogueira Stocchero, ex-presidente da Associação Brasileira de Células-Tronco, Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa.

Além disso, nem os médicos nem os cientistas conseguiram mapear ainda como as células-tronco se comportam depois de inseridas no corpo, segundo alguns especialistas, há o risco de um lado do seio ou do bumbum ficar maior do que o outro. Portanto, ainda é preciso cautela até mesmo com soluções que têm base científica. Como diz Stocchero, o futuro é promissor, mas ele ainda não chegou. "Células-tronco são como uma Ferrari, que não sabemos dirigir. Não descobrimos ainda como fazê-las obedecer às nossas ordens e nem podemos prever no que elas vão se transformar depois de implantadas".

Juventude no pote?

Os cosméticos com células-tronco também dividem a opinião dos médicos. A maioria acredita que ainda faltam estudos e comprovações científicas para atestar a real eficácia deles. "Apesar de não existir uma forma de incorporar células-tronco humanas aos cremes e xampus, a indústria farmacêutica e cosmética tem desenvolvido produtos com biomoléculas, enzimas e células-tronco de plantas para proteger as células-tronco da nossa pele das agressões naturais e químicas", diz a cirurgiã plástica Anna Verônica Ziccarelli. Na prática, essas células vegetais seriam potencializadoras dos outros ingredientes contidos na fórmula do cosmético e protetoras da camada basal da epiderme onde estão localizadas as células-tronco ? logo, o funcionamento da pele estaria a todo vapor, adiando os sinais do tempo.

Fonte: Revista Boa Forma


Voltar ➤